Quando chega final de ano começamos a acalmar os ânimos e diminuir o ritmo de trabalho e de vôo. Nestas horas começamos a rever o material que produzimos. Revendo as imagens de Brasília decidi me aventurar a fazer um pequeno vídeo. Para ficar ainda mais interessante este vídeo amador acompanha um breve relato que escrevi no dia 12/09/2009, um dia depois de realizar um voo acima de 200km em Brasília na rota de Pirinopolis. Segue o relato do vôo que vem com vídeo de brinde:
VIDEO BRINDE: http://www.youtube.com/watch?v=apuHtyjZ7zk
TRACKLOG: http://www.xcbrasil.org/leonardo/flight/19274
RELATO DO VOO EM BRASILIA – 11/09/2009
Acordei e vi que a condição prometia. Céu azul, vento forte e as formações pipocando no horizonte. Havia combinado com o André Nardelli de voarmos juntos, mas o trabalho fez com ele furasse. Falou que ia mais tarde com o Dudu de Brasília e Marcelo Alvorada. Pensei: “não vou esperar esta turma e perder o vôo”. Corri para a rampa e no caminho estava ansioso. Na estrada o vento já dava sinal que a condição estava forte.
Cheguei à rampa, montei a asa e comecei a me preparar. Aparece o Fleury do parapente. “Oba, vou ter companhia. Melhor do que o Fleury não existe. O cara é casca!” Mas ele diz que está machucado e não vai voar. “Pelo menos me dá cabo Fleury”. Na verdade queria que ele voasse comigo.
O vento forte na rampa me fez esperar alguns minutos. Decolei na hora boa e saí ganhando. O vento sudeste apontava para a rota Cocalzinho/Pirinópolis mas o teto baixo me deixou amarelado de cruzar pela Serra do Maranhão. O cloud street era lindo e tentador, ganharia no mínimo alguns preciosos minutos se fosse por dentro. Mas no início do vôo o teto não chegava a 2.500mts (lembre que em Brasília estamos a 1.000mts do mar, logo temos que descontar para calcular o desnível). “Muito baixo, não vou jogar com este ventão. Se pousar lá dentro é a morte.” Resolvi arriscar de outra maneira, correndo baixo e forçando Brasilinha para ganhar tempo. O LD estava excelente, acho que devido à umidade no ar proveniente de uma temporada de muita chuva. Sei lá. Normalmente quando corremos baixo em Brasília é pouso na certa, mas estava diferente. Eu corria baixo e a asa rendia. Apesar do teto baixo a fartura de térmicas era algo impressionante. Lembrava saída de frente em São Conrado com a pressão alta e a asa bóia na tirada.
Fui seguindo a rota de Brasília para fugir da Serra do Maranhão. Voei rápido e cheguei a Brasília em uma hora e meia. O vôo estava turbulento e as tiradas baixas me tiraram a energia. Resolvi comemorar a primeira etapa do vôo com um almoço. Barrinha de proteína de chocolate e algumas imagens. Esta imagem está na abertura do vídeo brinde. Ao passar Brasília resolvi colocar no caudal. “Agora o negócio é colocar na rota de Cocalzinho e quem sabe pousar no sítio do prefeito”. Fui seguindo as linhas de nuvens e aplicando a teoria do meu mestre Fabio Nunes. Agora estava navegando na rota dois que havia desenhado junto com o Geraldão. Coloquei o goal em Itaberaí.
O vento caudal empurrava com tudo e estava voando a 100km/h nas tiradas com vento de 27km/h. A asa rendia e o teto aumentou um pouco. Depois de 14hs o teto chegava a 3.100mts. Um teto baixo para cross country, mas a fartura de térmicas permitia uma segurança maior nas tiradas. Cheguei em Cocalzinho! “Maravilha, o sitio do prefeito. Aquele banho de lago, churrasquinho, cerveja. Vou pousar!”. Mas aí olho o cloud street e sou pego por uma térmica. “Vou enroscar só um pouquinho”. PI pipipiiiiiiiii, tudo para cima + 3m/s. “A visita ao prefeito fica para próxima vez. Vamos seguir”. O vento empurrava e o cloud street a frente era promissor. Agora era um momento decisivo. A serra que chega a Pirinópolis é um lugar meio inóspito com pedrocos belíssimos mas ao mesmo tempo ameaçadores com aquele ventão. Resolvi seguir. Bombava tudo e aos poucos fui me acalmando.
Passei a direita de Pirinópolis e neste momento fiquei meio perdido. Muitas estradas de chão e as de asfalto cruzavam na horizontal. Se quisesse seguir teria que entrar em outra roubada. Havia perdido contato no radio no início do vôo. Marquei GO TO rampa e vi que já havia batido os 200km em linha reta, um dos meus sonhos fazem alguns anos. Venho perseguindo esta marca fazem três anos. Gritei muito. Comemorei. Abandonei o vôo para pousar na beira do asfalto em segurança. O resgate chegou oito e vinte da noite. Fiquei na beira da estrada com uma lanterna na mão e um sorriso estampado no rosto. Cheguei ao hotel quase meia noite. Melhor do que isso impossível. Se estivesse em Quixadá voltaria no dia seguinte : )).
A passagem de ano é um momento de projetos para 2010. Se tiver um tempo, coloque na sua lista de projetos - cross country em Brasília. Você não vai se arrepender. Bem mais light que Quixadá e igualmente prazeroso.
Bons vôos a todos. Um feliz ano novo repleto de voos longos.
São meus sinceros votos.
Glauco Cavalcanti